sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Clark Gable


"Frankly, my dear, I don't give a damn" 


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

TIRADOR - Jaime Caetano Braun

Tirador velho curtido manchado de sangue fresco
Meu avental gauchesco que apresilho pacholento
És o rude paremento do meu ritual camponês
Que arrasto com altivez nas catedrais do relento
Teu flecos de meio palmo lado a lado sem emenda
Fazem às vezes de renda entropilhados na barra
E cantam que nem cigarra fazendo acompanhamento
Quando o laço barulhento cai num pealo de cucharra
Se às vezes num golpe seco o laço curte e escorrega
Sinto um cheiro de macega meio verde chamuscada
E de cintura oitavada calço no mais o garrão
Mas quem agüenta o tirão és tu relíquia sovada
Tu sempre andaste comigo gauderiando pelo pampa
Riscado de faca e guampa, manchado de criolina
Em qualquer lida genuína, na marcação e na festa
E até nas horas de sesta forrando cama de china
Por isso meu tirador cada vez que te apresilho
Viro de novo a potrilho e me vem aquela ânsia
De me largar na distância contigo, o pingo e o laço
Pra desentrevar o braço nalguma lida de estância
E ao te amarrar nas ilhargas meu rude traste campeiro
Eu me paro mais faceiro do que chinoca de brinco
E a cada pealo que finco ouço teus flecos proseando
Como que rememorando potreadas de 35
Quantas vezes, nem me lembro meu tirador de capincho
Eu te arrastei no bochincho dançando polca e vaneira
E nas canchas de carreira ao pé da fogueira acesa
Foste meu pano de mesa pra jogar truco e primeira
E quanto rio campo afora bandeei pra o lado de lá
Fazendo xaraxaxá contigo meu tirador
Na culatra ou de fiador tapado de espuma branca
Sempre batendo na anca do meu pingo nadador
Por isso quando esta vida nos rebentar de um tirão
No fundo do meu caixão serás o pano bendito
Porque tu traste esquisito que sempre amei com violência
És a lonca da querência que eu levo pra o infinito!



Assis Brasil de Albuquerque, um dos últimos caudilhos, recitando o Tirador!

TIO ANASTÁCIO - Jaime Caetano Braum

Essa é uma das minhas preferidas! 












Entre a ponte e o lageado,
na venda do bonifácio,
conheci o tio anastácio,
negro velho já tordilho;
diz que mui quebra em potrilho,
hoje pobre despilchado,
de tirador remendado
num petiço doradilho...
Quem visse o tio anastácio,
num bolincho de campanha,
golpeando um trago de canha,
oitavado no balcão,
tinha bem logo a impressão,
que aquele mulato sério
era o rio grande gaudério
fugindo da evolução!
A tropilha dos invernos
tinha lhe dado uma estafa,
e aquela meia garrafa,
dentro do cano da bota,
contava a história remota
do negro velho curtido
que os anos tinham vencido
sem diminuir na derrota.
Mulato criado guacho
nos tempos da escravatura,
aquela estranha figura
na vida passara tudo;
ginetaço macanudo,
já desde o primeiro berro
saia trançando ferro
no potro mais culmilhudo!
Carneava uma res, num upa,
com toda calma e perícia!
reservado e sem malícia,
negro de toda confiança,
bem quisto na vizzinhança,
dava gosto num rodeio,
de pingo alçado no freio
pealando de toda trança
Tinha cruzado as fronteiras
da argentina e do uruguai;
andara no paraguai,
peleando valentemente,
e voltara, humildemente,
como tantos índios tacos
que foram vingar nos chacos
a honra da nossa gente!
Caboclo de qualidade
que não corpeava uma ajuda
na encrenca mais peleaguda
sempre conservava o tino,
garrucha boca de sino
carregada com amor
e um facão mais cortador
do que aspa de boi brasino!
Porém depois que os janeiros
foram ficando a distância,
andou, de estância em estância,
e foi vivendo de changa:
repontando bois de canga,
castrndo com muita sorte,
e, em tempos de seca forte,
arrastando água da sanga...
Ficou sendo um desses índios
que se encontra nos galpões
e ao derredor dos fogões
fala aos moços, com paciência,
de que aprendeu na existência,
ao longo dos corredores,
alegria, dissabores,
curtido pela experiência!
Tio anasstácio pra qui;
tio anastácio pra lá...
mandado mesmo que piá
pôr aquela redondeza;
nos remendos da pobreza,
entrava e passava inverno,
como um tronco so no cerno,
pelegueando a natureza!
Por isso é que nos bolinchos
só se alegrava bebendo
como se cada remendo
da velha roupa gaudéria,
fosse uma sangria séria
por onde o sangue do pago
se esvaisse, trago a trago,
por ver tamanha miséria!
E até parece mentira
- negro velho de valor!
morreste no corredor
como matungo sem dono;
não tendo neste abandono,
ao menos um companheiro,
que te estendesse o baixeiro
para o derradeiro sono!
E agora que estas vivendo
na estância grande do céu
engraxando algum sovéu
prao patrão velho buenacho,
não te esquece aqui de baixo
onde alolargo ainda existe
muito xiru velho triste
como tu, criado guacho!
como tu, tio anastácio..